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Sobre a ocupação do McDonalds em Marselha, França

Escrito por OPIC (Organização Pela Internacional Comunista), de Marselha.

Desde anteontem (10 de abril), em Marselha, funcionários e trabalhadores dos 13º e 14º distritos vem ocupando um McDonald’s em Saint Marthe. Eles o transformaram em um centro logístico para a entrega de refeições gratuitas e outros bens de higiene para todos os distritos de Marselha. Até agora, mais de 500 refeições foram entregues.

Mais do que qualquer outra coisa, precisamos dizer que o que está acontecendo em Marselha não é luta, mas sobrevivência. Há apenas uns poucos elementos de organização da nossa classe. A ocupação do McDonald’s de Saint Marthe é um dos poucos elementos que colocam essa dimensão.

Há uma longa história de lutas entre os trabalhadores e a gerência do McDonald’s. Esse movimento atravessou toda França, numa série de lutas pelo poder: esses trabalhadores têm um verdadeiro know-how de resistência no trabalho, passo a passo, do terreno legal (um conhecimento bem preciso da lei e suas contradições) à luta direta (ocupações e bloqueios do McDonald’s). O McDonald’s de Saint Marthe já acolheu uma série de atividades de solidariedade direta a lutas, incluindo o bloqueio de caixas registradoras e organização de uma noite de apoio aos prisioneiros do movimento dos coletes amarelos, que foi estendida como uma solidariedade a todos os prisioneiros.

A gestão do confinamento e do desastre humano está sendo administrada de uma forma humanitária, isto é, tanto pelas associações comunitárias quanto pela polícia. Há uma série de conexões entre esses dois tipos de gestão.

Também as formas de organização que vemos são internas à relação entre gestão comunitária e gestão estatal. O conflito se dá ao redor da gestão da legalidade, tal como proibição de viagens, confinamento, e o uso de associações.Esta situação é importante: a comunidade é ao mesmo tempo um espaço de organização e o último cadeado antes da expressão espontânea da vingança da nossa classe.

Até o momento não houve confisco de mercadorias ou de comidas, pelos trabalhadores de Saint Marthe, além, é claro, do próprio McDonald’s de Saint Marthe. Todo o resto são apenas doações, feitas em colaboração com associações territoriais.Quando nenhuma luta ocupa o espaço, os estoques de outras associações, os meios de solidariedade, em geral eles próprios herdados de lutas, são mobilizados e formam a primeira organização imediata.

Por mais impressionantes que seja a mobilização de doações das associações, estas nunca poderão alimentar toda a Marselha. Marselha é a cidade com mais proletários sem reservas financeiras em França. Concretamente, isto significa que, se neste momento são produzidas 500 refeições, isso é algo ao mesmo tempo enorme e minúsculo: seriam necessários 500 McDonalds para satisfazer as necessidades da região de Marselha. E 500 doadores de alimentos.

Em suma, a ação dos trabalhadores de Sainte-Marthe, em pleno confinamento, é um ato corajoso. Por enquanto, porém, continua a ser o substituto de um Estado que não hesita em gerir os distritos do norte de Marselha como a última das suas colônias: através do isolamento, do laissez-faire e do fornecimento de pacotes humanitários em larga escala.

A matriz desta iniciativa, que permite esta confiança, é a luta. É perante a adversidade e porque os trabalhadores da McDonald’s têm esta ideia fixa de não largar a multinacional, que conseguiram organizar-se como hoje, tecer laços no cesto do cobras que é o negócio da miséria em Marselha.

Não criticamos, de forma alguma, estas formas de organização coletiva. Por outro lado, afirmamos que só os proletários em luta poderão frustrar os planos da burguesia, como fizeram os trabalhadores de Saint Marthe ao tomarem este McDonald’s.

Os “distritos” de Marselha são hoje palco de disputas nas filas de espera entre os trabalhadores para receberem ajuda alimentar. O exemplo de Sainte Marthe deve agora ser utilizado por outras iniciativas para assumir estes centros sociais, estas lojas, espaços de organização bairro a bairro, onde os habitantes podem definir as suas próprias regras de organização face à pandemia e ao Estado.

Para nós, é evidente que esta situação de confinamento irá colocar muitos desafios.

Em primeiro lugar, porque o confinamento agrava a situação dos trabalhadores. Nestes tempos de contenção, os resíduos estão por toda a parte. A gestão das faltas por parte do Estado é deletério e inaceitável. Reservas alimentares: são muitas. E, no entanto, em certos distritos de Marselha, há disputas por causa da farinha e do óleo. Há uma quantidade chocante de produtos que estão sendo jogados fora por mercearias, supermercados e similares.

Antes, durante ou depois do confinamento, haverá sempre proletários que trabalham arduamente pela sua sobrevivência e burgueses que preferem desperdiçar alimentos a dar-nos de graça. A gratuidade não deve ser um momento que durará para todos nós. Preferimos ver a emergência de meios para lutar.

Em segundo lugar, a situação nos nossos locais de trabalho é absurda. Todas as pessoas que fazem entregas estão sendo testadas (muitas vezes com a mesma máquina, a propósito). Trabalhadores da McDonald’s que usaram o seu direito de retirada foram demitidos. Pessoas estão sendo obrigadas a trabalhar sob ameaça de ação judicial. O direito à greve está sendo limitado. E tudo isto sem conseguir aplicar as regras impostas sobre o respeito pelas distâncias entre os trabalhadores. Trabalhadores são desinfetados do vírus por jatos de caminhões, faz-se um espetáculo, utiliza-se todo o tipo de métodos completamente absurdos e muitas vezes degradantes para fingir gerir a situação. As normas de segurança são frequentemente apenas isso: um espetáculo, e a entidade patronal é isenta de responsabilidades e aproveita a situação para acusar o trabalhador de não seguir as regras.

Esta situação só pode piorar à medida em que a reabertura dos drive-thrus, que empregam muitos proletários desses distritos, foi anunciada em quase toda a França.

Por todas estas razões, é impossível regressar ao trabalho e à vida cotidiana sem colocar a questão do poder.

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