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Um breve resumo das lutas globais ao redor do Covid-19 – 1 a 14 de abril de 2020

Por Angry Workers of the World

Antes de tudo, temos que admitir o caráter muito aleatório de tal resumo, já que a quantidade de greves, motins e protestos foi massiva. Ao invés de fingir apresentar um quadro completo, queremos colocar alguns pontos, ilustrados por exemplos. Convidamos camaradas internacionalistas a participarem de nosso esforço coletivo de compartilhar informações sobre essas lutas para além das manchetes, para podermos intervir.

1) A classe dominante sabe o que está em jogo

Em um artigo da Bloomberg, um comentarista alega que no atual período de pico da pandemia do Covid-19 podemos ter uma pausa temporária dos protestos em regiões que testemunharam ferozes revoltas (Sudão, Chile, Iraque, etc.). Após essa trégua, o impacto econômico da pandemia, que, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), resultará em severos cortes na renda de 1,25 bilhão de pessoas, intensificará e alastrará esses movimentos de classe. 1 Podemos ver uma lenta mudança na reação do estado de ‘contenção do Corona’ para ‘contenção da inquietação’, por exemplo quando o Estado na Itália enviou tropas para o sul do país temendo saques em massa 2, ou o Estado em Portugal, proibindo greves como parte das medidas de emergência. 3 Na França e na Alemanha, os Estados alteraram os regulamentos legais e permitiram a extensão da jornada de trabalho semanal nos chamados setores-chave de 48 para 60 horas. No Brasil, o Estado permite que as empresas reduzam em 50% a jornada de trabalho e os salários. 4 Em setores centrais como a agricultura, o Estado assume controle do abastecimento e a quarentena social da força de trabalho, recrutando trabalhadores migrantes sazonais adicionais, como no caso da Alemanha e da Itália 5; considerando o recrutamento de estudantes e trabalhadores em lay off no Reino Unido 6; ou considerando cortes salariais sancionados pelo Estado nos EUA 7. Medidas estatais e a reação dos patrões já levaram a um aumento nas disputas com trabalhadores agrícolas, como na Itália e na Espanha. 8

2) Greves de trabalhadores da indústria estão na vanguarda das reações coletivas da classe trabalhadora ao Covid-19

A revelação mais crucial da crise do Covid-19 é o fato de não vivermos em uma sociedade “pós-industrial”, dominada pelo “trabalho imaterial” e as greves, como uma arma coletiva dos trabalhadores, não serem uma relíquia do passado. A maioria das reações coletivas dos trabalhadores à crise foram greves de trabalhadores, em grande parte manuais, nas indústrias essenciais. Inicialmente, essas greves foram relacionadas principalmente à falta de saúde e segurança. Nas últimas duas semanas, vimos greves de trabalhadores de esgoto e águas residuais na França, no Reino Unido e nos EUA 9; greves selvagens no Royal Mail no Reino Unido 10; a paralisação de mais de 10.000 trabalhadores da construção nos EUA 11; greves em fábricas de embalagens na França 12; de trabalhadores de supermercado no Brasil e nos EUA 13; de trabalhadores da Amazon nos EUA, seguindo França e Espanha 14; de trabalhadores de automóveis na cadeia de abastecimento nos EUA 15; de trabalhadores de processamento de alimentos e de fast food nos EUA e greve selvagem/pedido de licença médica em massa no Reino Unido. 16 No centro dessas greves estavam os trabalhadores de hospitais e assistência, que entraram em greve nos EUA, Índia, Paquistão, Rússia e Grécia. 17 Essas greves ocorrem onde há alta taxa de absenteísmo, por ex. na Alemanha, no setor de limpeza e no Reino Unido, no setor de processamento de alimentos, que registraram taxas de absenteísmo de até 40%.

3) Algumas das greves passaram de reações em empresas individuais para ações unificadas, independentes do aparato sindical.

Aqui, os principais exemplos são greves no setor automobilístico no México, que assumiram uma escala massiva 18; outro exemplo foram greves em call-centers que se espalharam pelo Brasil 19; mas também observamos exemplos de manifestações “espontâneas” menores, por exemplo no caso de trabalhadores de duas empresas distintas paralisando em Illinois, EUA. 20 Essas expansões orgânicas de greves criarão elos importantes para as disputas que estão por vir.

4) Algumas das greves vão além das reivindicações imediatas iniciais por saúde e segurança e colocam em questão o controle mais amplo

Em Chicago, trabalhadores de hospitais protestaram contra a decisão planejada da administração de fechar um departamento de emergência em uma parte mais pobre da cidade, ainda mais tendo em vista que a maioria das vítimas do Covid-19 nos EUA são pobres da classe trabalhadora. 21 Em Chicago, enfermeiros se recusaram a trabalhar até que a gerência contratasse mais trabalhadores. 22 Antes, os trabalhadores da General Electrics nos EUA, que normalmente produzem motores a jato, protestaram e exigiram que sua produção mudasse para equipamentos médicos. 23 Em Marselha, trabalhadores de um Mc Donald’s transformaram o restaurante de fast food em um centro de distribuição de alimentos para a classe trabalhadora local. 24 Essas são experiências reais em que os trabalhadores questionam as estruturas de poder usuais e mais fundamentais. O “retorno ao trabalho” será o próximo ponto de tensão e já podemos ver como patrões e sindicatos tentam gerenciar essa questão propensa a conflitos, por exemplo, no caso de um acordo entre a FIAT e os sindicatos na Itália. 25

5) Algumas das greves ocorreram em um ambiente social mais amplo, que irão colocar em xeque a estabilidade do regime político

Nesse caso, vimos greves no setor de mineração no Irã 26; de trabalhadores têxteis em Mianmar 27; de trabalhadores têxteis e eletrônicos na Turquia (que também espancaram seus chefes). 28 Não é improvável que a queda econômica da crise do Corona em combinação com essas greves chacoalhe os regimes que estiveram sob fogo recentemente.

6) As greves passarão cada vez mais da questão da “saúde e segurança” para a questão dos salários

Ouvimos nas notícias que muitas empresas começam a deixar de pagar salários integrais aos trabalhadores e que, por exemplo, 30% dos trabalhadores nos EUA e no Canadá estão atrasando o pagamento de aluguel. 29 A questão dos salários e dívidas se tornará mais central nas próximas semanas e podemos ver os primeiros vislumbres disso nas recentes greves de trabalhadores portuários na China 30 e de operários de fábrica na Argentina. 31 Os ‘meios de produção’ das empresas se tornarão o principal trunfo coletivo dos trabalhadores para garantir o pagamento de salários e isso pode incluir trabalhadores que não estejam diretamente empregados pela empresa. Nesse caso, um foco serão os salários, outro a questão da habitação, pois vemos um aumento na luta por moradia, por exemplo em Santa Cruz 32 e de empregadas domésticas em Delhi. 33, que se apropriaram dos apartamentos vazios de seus patrões.

7) Trabalhadores do setor informal enfrentam o ‘regime de confinamento’ e a máfia paraestatal aparece

Podemos ver uma certa divisão aparecendo na forma e no objetivo das lutas, que depende do fato dos trabalhadores serem diretamente empregados ou de serem do setor informal, como mercados de rua ou pequenos comércios. Neste último caso, o Estado e a polícia, que impõem o confinamento, tornam-se o alvo, já que o confinamento significa a falta de renda para esses trabalhadores. Nesse caso, vimos tumultos de trabalhadores informais migrantes em Surat, Índia 34, de jovens proletários no Iraque 35 ou protestos de trabalhadores de barracas de mercado no Quênia. 36 A brutalidade policial contra trabalhadores marginalizados também aumenta nos países ocidentais, por ex. a polícia matou jovens proletários em Beziers, na França 37 e em Anderlecht, na Bélgica 38, o que causou distúrbios no último caso. Aqui também podemos ver uma divisão do trabalho emergindo entre a força oficial do Estado, que visa a “lei e ordem” gerais, e a organização paraestatal da máfia, que assume funções básicas de assistência e tenta expandir sua influência nos estratos inferiores da classe trabalhadora, como na Itália e no México. 39 Neste caso, somente os saques e a autorredução dos preços, como aconteceu, por exemplo, em Honduras 40, não serão uma resposta suficiente à falta de comida e à violência do Estado. Ainda assim, a recente onda de motins nas prisões, dos EUA, Argentina, Líbano, Irã, México à Rússia, mostra que o braço repressivo do sistema é frágil. 41.

8) Precisamos de um debate sobre a estratégia da classe trabalhadora nas circunstâncias atuais

Os AngryWorkers, como coletivo político, incentiva um debate coletivo sobre a “estratégia revolucionária”, que aborde as principais questões colocadas pelas lutas atuais:

• como as lutas nos setores essenciais podem ampliar seu escopo para as cadeias de abastecimento globais das quais fazem parte?
• como as lutas nos setores essenciais atendem às necessidades materiais de setores marginais da classe trabalhadora?
• como podem ser superadas as diferenças e divisões regionais impostas não apenas pelas fronteiras nacionais, mas por diferentes níveis de desenvolvimento?

Escrevemos um fragmento para a discussão e propomos debatê-lo defronte das lutas reais que vemos atualmente.

O documento pode ser lido nesse endereço:

angryworkersworld.wordpress.com/2020/04…/

______________________________ ______________________________ __________

1
www.bloomberg.com/opinion/articles/2020…

2
www.wsws.org/en/articles/2020/04/06/ita…

3
www.marxist.com/coronavirus-shatters-il…

4
www.wsws.org/en/articles/2020/03/20/bra…

5
twitter.com/WorkersAngry/status/1248306…
twitter.com/WorkersAngry/status/1249224…

6
twitter.com/MediocreDave/status/1248530…

7
www.npr.org/2020/04/10/832076074/white-…

8
twitter.com/WorkersAngry/status/1248533…
twitter.com/WorkersAngry/status/1245359…

9
www.wmar2news.com/news/coronavirus/wast…
www.ouest-france.fr/nouvelle-aquitaine/…
www.bbc.co.uk/news/uk-england-merseysid…

10
twitter.com/ShellyAsquith/status/124823…
twitter.com/NSSN_AntiCuts/status/124571…

11
twitter.com/OvetzRobert/status/12463387…

12
twitter.com/WorkersAngry/status/1248935…

13
twitter.com/Feverstruggles/status/12479…
twitter.com/OvetzRobert/status/12479552…

14
twitter.com/TeddyRedder/status/12478835…
twitter.com/Dch1United/status/124704909…

15
twitter.com/labornotes/status/124611878…

16
www.bloomberg.com/news/articles/2020-04…
twitter.com/contre_capital/status/12484…
twitter.com/FAUGewerkschaft/status/1249…
twitter.com/OvetzRobert/status/12462392…
www.devonlive.com/news/devon-news/devon…
angryworkersworld.wordpress.com/2020/04…/

17
twitter.com/OvetzRobert/status/12457354…
twitter.com/WorkersAngry/status/1245412…
twitter.com/WSWS_Updates/status/1248341…
twitter.com/WorkersAngry/status/1247566…
twitter.com/WSWS_Updates/status/1246754…

18
twitter.com/WSWS_Updates/status/1247555…

19
feverstruggle.net/2020/04/02/call-cente…/

20
twitter.com/contre_capital/status/12474…

21
labornotes.org/blogs/2020/04/why-are-th…

22
twitter.com/libcomorg/status/1247420725…

23
www.vice.com/en_us/article/y3mjxg/gener…

24
www.revolutionpermanente.fr/Un-McDo-mar…

25
twitter.com/WorkersAngry/status/1248622…

26
twitter.com/OvetzRobert/status/12468600…

27
twitter.com/contre_capital/status/12465…

28
twitter.com/WorkersAngry/status/1246371…
twitter.com/WorkersAngry/status/1245628…

29
twitter.com/colefwebber/status/12478954…
twitter.com/adam_tooze/status/124827195…

30
twitter.com/WorkersAngry/status/1245627…

31
twitter.com/PersonalEscrito/status/1248…

32
twitter.com/scimc/status/12491343766732…

33
twitter.com/WorkersAngry/status/1248167…

34
twitter.com/contre_capital/status/12488…

35
twitter.com/WorkersIraq/status/12478433…
twitter.com/WorkersIraq/status/12457727…
twitter.com/WorkersIraq/status/12472372…

36
twitter.com/WorkersAngry/status/1245427…

37
twitter.com/WorkersAngry/status/1248870…

38
twitter.com/WorkersAngry/status/1248870…

39
twitter.com/VFelbabBrown/status/1248949…

40
twitter.com/TerTerEtLiberte/status/1248…

41
www.theguardian.com/us-news/2020/apr/10…
twitter.com/KING5Seattle/status/1248098…
twitter.com/enough14/status/12486134457…
twitter.com/WorkersAngry/status/1248151…
twitter.com/WorkersAngry/status/1248619…
twitter.com/WorkersAngry/status/1246713…
twitter.com/WorkersAngry/status/1246327…
twitter.com/VitalistInt/status/12490494…

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