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Luta e revolta nas prisões gregas

No dia 9 de abril, uma revolta irrompeu na prisão Eleonas, em Tebas, após a morte de uma prisioneira de 38 anos na ala E, que foi encontrada morta pela manhã provavelmente devido à epidemia de covid-19. Seu nome era Atitze Demiroglou e ela era de origem roma [cigana].

As presas reclamaram que sua companheira de prisão pode ter morrido de coronavírus, já que nos últimos dias ela havia febre, falta de ar e uma forte tosse, mas não foi levada ao hospital e recebendo apenas uma aspirina. Em sua ala haviam outras 14 presas, que bateram nas portas de de suas celas chamando por ajuda médica, mas os guardas as ignoraram.

As presas em mais de dois setores da prisão incendiaram seus colchões e se revoltaram.

O Ministério da Proteção Civil fez uma declaração dizendo que naquele dia a mulher foi levada pela manhã pela ambulância do Centro Nacional de Emergência (EKAB) para um hospital local, onde acabou morrendo. Em contraste, seus colegas de detenção em Tebas afirmam que a jovem de 38 anos morreu na prisão durante a noite.

Algumas horas após a rebelião a Secretária Geral de Política Anti-Crime Sofia Nikolaou anunciou que “A morte da detenta em Tebas se deve a causas patológicas e não ao coronavírus”. Ela também acrescentou que a revolta tinha sido controlada.

Os detentos fizeram um comunicado sobre os eventos do primeiro dia:

“Hoje, 9 de abril, a prisioneira Azizel Nteniroglou morreu em sua ala, desamparada. Ela tinha problemas cardíacos subjacentes e febre alta e estava chamando por ajuda a noite toda porque tinha dores no peito e não conseguia respirar. Segundo testemunhas, eles nem sequer lhe mediram a temperatura e não sabemos a causa exata da sua morte. O guarda que estava em serviço ameaçou denunciá-la porque ela o estava irritando. Seu corpo sem vida foi arrastado para fora com um lençol, na frente dos olhares em choque das detentas de sua ala. O trágico acontecimento aconteceu na ala E, onde cerca de 120 pessoas estão abarrotadas. As prisioneiras se revoltaram e a insurreição se espalhou por toda a prisão. Há um mês, outra prisioneira morreu. A indiferença criminosa pelas prisioneiras e sua saúde transforma as sentenças de muitos em sentenças de morte. O governo e o ministério são responsáveis pela morte da prisioneira. Exigimos a libertação imediata de grupos frágeis: detentas doentes, mães com seus filhos e mulheres idosas, que representam um terço do total de presos. Não voltaremos às nossas celas até o fim!”.

Na mesma noite as detentas anunciaram que ficariam fora de suas celas até as 23h, manteriam a prisão aberta durante o dia seguinte e que sairiam do benefício do trabalho prisional [2]. Elas exigiram que se aliviasse o congestionamento do presídio por causa da epidemia e também a libertação imediata de todas as mulheres consideradas como grupos vulneráveis (pessoas doentes, mulheres com filhos, mulheres idosas) e as que haviam cumprido os 2/5 de suas penas. Após o anúncio de que continuariam a luta, a força policial especial entrou na prisão e atacou violentamente as detentas. Muitas delas foram espancadas com tanta força, que foram levadas para o hospital. No dia seguinte, muitas das mulheres que participaram da revolta foram novamente levadas à julgamento pelo protesto na prisão.

Dias antes, numa sexta-feira, dia 20 de Março, as presidiárias da prisão de Korydallos se recusaram a entrar em suas celas durante o turno do meio-dia, iniciando assim uma primeira mobilização para reivindicar as demandas que haviam feito em relação ao manejo da situação prevalecente nas prisões, devido à epidemia da covid-19. O protesto parou quando o serviço penitenciário anunciou a decisão do Ministério: se os presos não terminassem a mobilização, ficariam trancados em suas celas por 24 horas. Mais da metade dos presos, intimidados pela ameaça, retornaram as suas celas, pondo fim à mobilização.

Desde o dia 14 de Abril, prisioneiros da ala masculina da prisão de Korydallos declararam que se absterão do benefício do trabalho prisional até que o Estado inicie o descongestionamento da prisão liberando um número significativo de prisioneiros. Eles também pediram medidas de segurança, menos guardas prisionais e a interrupção das transferências até o final do isolamento.

Do dia 16 de Abril, prisioneiros da prisão Domokos, uma prisão de alta segurança, anunciaram que se absterão do beneficiário trabalho penitenciário e do almoço.

A Secretária Geral de Política Anti-Crime, Sra. Sofia Nikolaou, fez, vinte dias atrás, algumas declarações sobre um ato legislativo que levaria ao descongestionamento das prisões durante a epidemia. Desde então, nada aconteceu. Após as medidas de fechamento, o Ministério da Proteção Civil restringiu a visita gratuita aos presídios e tem promovido a proibição total da importação de alimentos e roupas para os presos. A plena implementação das medidas causaria transtornos a milhares de presos e seus familiares. Além disso, advogados também expressaram insatisfação, pois há dificuldades nas visitas e negociações com seus clientes que estão sendo realizadas nos presídios do país.

Normalmente há falta de cuidados médicos dentro das prisões na Grécia e há muitas pessoas que têm doenças crônicas (como o câncer) que continuam presas até sua morte. Mesmo nos casos em que alguns detentos são transferidos para o hospital da prisão (nem todas as prisões têm um departamento hospitalar), geralmente as condições de higiene são muito ruins e esta situação causa ainda mais problemas às pessoas que já estão doentes.

Parece que mais protestos irromperão nas prisões gregas, como também nos campos de detenção de migrantes, por causa das terríveis condições de vida e da ausência de qualquer cuidado médico. O problema é que ninguém parece ser capaz de se solidarizar com as suas lutas (também por causa das medidas de isolamento), portanto a repressão do Estado será cada vez mais dura. O isolamento do seu confinamento torna essas lutas mais difíceis de serem apoiadas, especialmente tendo em conta que o único movimento social na Grécia nos últimos dois anos veio da extrema-direita. Como resultado, suas lutas podem parar e começar de repente, não por causa de seus limites internos, mas por causa da violência do Estado.

Notas

[1] Há muitas pessoas com origem cigana nas prisões gregas. Em sua maioria têm cidadania grega, mas muitas vezes são maltratados pelo Estado grego e pela polícia. Além disso, o governo grego emitiu restrições especiais para os ciganos durante a pandemia, tais como restringir a entrada/saída de seus acampamentos e colocar policiais ao seu redor como guardas.

[2] Nas prisões gregas, em alguns casos, os detentos podem trabalhar para conseguir uma redução de sua pena.

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