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O novo pacto social na Argentina frente ao novo coronavirus

O novo presidente Alberto Fernandez tomou posse há alguns meses e já enfrenta uma grande crise social: a chegada do novo coronavírus ao país. A Argentina começou com as medidas restritivas em meados de março, sendo o país que teve a atitude mais resoluta nesse assunto, enquanto Brasil e Chile estão atormentados por conflitos internos e medidas fracas, além, é claro, de acumularem um número crescente de infectados.

De volta ao poder, o peronismo se mostra extremamente unificado e capaz de fazer a máquina corporativa que estrutura o país andar: governo, sindicatos e empresários tem ações e discursos bastante alinhados, sob a condução de Alberto Fernandez. Nos impressionou, como militantes, como as principais empresas do país acataram as primeiras medidas de proteção aos trabalhadores e trabalhadoras (teletrabalho, licença para grupos de risco, fechamento dos shopping centers etc.), além da quase nula oposição ao anúncio da quarentena total na noite da quinta-feira 19/03. A maioria dos sindicatos apoiaram desde o início as reivindicações de fechamento dos locais de trabalho não-essenciais (com algumas exceções, como as fábricas de pneu FATE), demonstrando que o acordo já tinha sido selado com as patronais, e ofereceram suas infraestruturas para as medidas de emergência sanitária (principalmente hotéis de propriedade sindical, além de suas sedes etc).

No entanto, para além do acordo de cúpula, durante a primeira semana de quarentena circularam comunicados de diferentes setores de trabalhadores denunciando os riscos das atuais condições de trabalho (falta de insumos de higiene, aglomeração, tarefas não essenciais etc.), em lugares importantes como aeroportos, transporte público, supermercados, e inclusive trabalhadores e trabalhadoras da saúde; reivindicações completamente ignoradas por seus respectivos sindicatos. Passado um primeiro momento de “unidade”, já começamos a ver quem ficou de fora do novo “pacto”.

O novo “pacto social”, como denomina na Argentina os períodos de paz entre os principais braços corporativos do país (governo, empresários e sindicatos), deve muito ao aparato peronista no governo, mas também é resultado do fracasso completo do último presidente, Maurício Macri, em pôr a economia em ordem. Ainda que a relação seja pacífica, a negociação é intensa: entrando na segunda semana de quarentena, sindicatos e empresários se unem para pressionar o governo a flexibilizar a quarentena a fim de “proteger empregos”.

Por mais que Alberto Fernandez tenha como sua vice a ex-presidenta Cristina Kirchner, esses poucos meses revelaram certas diferenças importantes de serem observadas. Cristina Kirchner, assim como seu finado marido Nestor Kirchner, governaram com ajuda dos movimentos sociais surgidos nos anos 90 e no início de 2000. Parte importante da tecnologia de gestão criada então se baseava na integração desses movimentos como gestores de programas de assistência social do estado. No entanto, o novo presidente dá sinais de que não está de acordo com essa intermediação. Já no início do ano, o governo anunciou um novo programa assistencial, os “Cartões Alimentícios”, que recebeu críticas de alguns dirigentes “piqueteiros” devido ao fato do Estado estar entregado diretamente os cartões à população (mais parecido com o modelo brasileiro do “Bolsa Família”).

A mesma lógica aparece em uma medida anunciada para enfrentar os problemas econômicos dos e das trabalhadoras informais durante a quarentena. Desde os primeiros dias da medida restritiva, algumas organizações começaram a circular pelo WhatsApp um texto que mencionava um auxílio de 5 mil pesos por pessoa, por três meses, para trabalhadores informais. Cada organização dizia que estava em diálogo direto com o governo, que logo anunciaram oficialmente, e que no entanto todos e todas as pessoas interessadas deveriam se inscrever em suas planilhas para receber a quantia. No entanto, poucos dias depois veio o anúncio oficial do governo de um auxílio de 10 mil pesos, em uma só parcela, que seria disponibilizado diretamente na agência estatal de assistência social. Novamente, as organizações políticas e sociais ficam excluídas do arranjo estatal do novo presidente. Talvez essa nova situação não tenha repercussão imediata, mas pode indicar uma nova forma de tecnologia da gestão governamental sobre os setores mais empobrecidos da nossa classe.

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